3 de dezembro de 2014

Como se não houvesse o amanhã.

Quando eu abri os olhos meu coração ainda estava disparado, parecia mesmo  que eu havia levado uma carga elétrica no corpo, notei que ainda era madrugada, mas antes de conseguir voltar a dormir fiquei por um tempo lembrando as cenas do que me fez acordar daquela forma, que pesadelo, que grande pesadelo.

Todos estavam acomodados nos seus lugares, depois que a aeromoça deu as instruções de salvamento eu entrei em contato com os passageiros, ninguém estranhou que o piloto era uma mulher, muito menos que essa mulher tinha apenas vinte anos. Na televisão da minha cabine eu via todos lá fora e cada pequeno lugar daquela nave enorme.

Foquei em uma menina jovem e magra sentada do lado da janela na altura da asa, fiquei curiosa ao perceber que havia um instrumento na sua mão, não me contive e dei zoom na imagem, era uma flauta, uma pequena flauta doce. Meu coração ficou apertado, primeira lembrança que me veio a cabeça foi exatamente aquela... Ano de dois mil e oito, la estava eu, sentadinha ao lado da janela, na altura da asa, agarrada a minha flauta doce, sonhando com o momento de pisar em terras Alemãs.

Fechei os olhos firmes e balancei a cabeça, eu estava realmente muito feliz ao voltar aquele dia mesmo que em pensamento. Nosso voo também estaria indo para Berlim, o que me fazia voltar diversas vezes no passado. Uma hora no ar e eu vi situações repetidas diante dos meus olhos. Um dos alunos daquele intercambio estava passando mal, outro quase desmaiava, um grupo fazia muita bagunça, outros conversavam comportadamente enquanto outros dormiam e alguns sonhavam com o rosto colado na janela.

Tantos jovens, quanta energia, eles pairavam a idade entre 14 e 18 no máximo. Observei em um canto um casal se formando, cada um que eu reparava fazia questão de comparar e apelidar com os nomes dos meus antigos colegas. Havia uma morena que não parava de escrever em um livro de capa azul, com certeza a chamei de Mayara e contei para a aeromoça que ela estava passando a limpo as notas das músicas, assunto que não a interessava, mas significava e tanto para mim.

Realmente aquele dia estava se repetindo e eu me perguntei como havia ido parar a frente de uma nave e não aproveitei a chance de virar uma grande música. A noite caia, piloto automático ligado e agora sim era o momento de relaxar e descansar por um momento! Estava inquieta e meus sextos sentidos sempre tem razão, então entrei em uma agonia e fui fiscalizar meu atual local de trabalho. Fazia sentido, reparei que havia uma falha no sistema!

Nunca tive a necessidade de entrar em contato com o sistema 1 de emergencia. E logo quando precisei pela primeira vez não consegui. Rapidamente procurei em todos os lugares da cabine o que poderia me ajudar e nada a minha frente servia, parei meio desnorteada e sem muita noção de como agir. As instruções e aulas de emergência são sempre interessantes, mas na pratica é tudo totalmente diferente. Comuniquei a minha equipe sobre o problema e sentada na minha cabine ainda através das câmeras, os vi rondando os corredores da nave pedindo aos passageiros que colocassem os cintos.

Tudo que não precisávamos era passar por uma turbulência, estávamos sem segurança alguma, prestes a um desespero, a uma dor, a uma agonia e a um adeus. Turbulência forte de 10 minutos a nave avisava, mas eu sabia que nem mesmo conseguindo passar dela teríamos como manter a nave até terra firme. Voltei a observar aqueles jovens e novamente vi aquela menininha, sensível e assustada com a situação, sem ao menos imaginar que o pior estava por vir.

Me peguei chorando ao lembrar que em dois mil e oito exatamente ao anoitecer, nosso avião havia passado por uma turbulência e eu gravei o rosto de desespero do Senhor a minha frente falando para a aeromoça que não queria morrer. Apertei meus olhos e orei para que como daquela vez, tudo desse certo, mesmo sabendo que naquela situação era preciso um milagre. Antes que fosse tarde demais, me envolvi pela enorme emoção e entrei em contato com meus passageiros, a única coisa que consegui lhes dizer foi:

''Ame, escolha amar, saiba amar, queira amar, o amor é paciente e benigno, não arde em ciúme, o amor não se ufana, não se enobrece, não é rude, nem egoísta, o amor não se alegra com a injustiça, não se ressente do mal, o amor é a verdade, está sempre pronto para perdoar, crer, esperar e suportar o que vier, é preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há!'' 

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